CAPÍTULO III
O Surgimento do Jiu-Jitsu
Há cerca de 2.500 anos atrás nascia ao norte da Índia o príncipe Sidd Naitha Gautema, homem culto e de grande inteligência, que mais tarde lançaria as bases da religião que teria seu nome e que logo se desenvolveu por toda a Índia, o Budismo.
Uma das principais preocupações de Buda (o iluminado), foi dotar seus seguidores de grande cultura e conhecimentos gerais para melhor propagarem a sua fé.
Dentre seus seguidores (monges de longínquos mosteiros, obrigados a percorrerem pelo interior da Índia longas caminhadas tendo que se defender contra assaltos de bandidos que infestavam a região) apareceram aqueles que são realmente os criadores da luta que lhes permitiria a própria defesa, sem o uso de armas, o que ia contra a moral de sua religião.
Assim nasceu o Jiu-Jitsu, com o espírito de defesa que é a sua essência.
A aplicação de leis físicas, movimentos de forças em equilíbrio, centro de gravidade e estudos minuciosos dos centros vitais do corpo humano, propiciaram aos seus criadores fazerem do Jiu-Jitsu uma arte científica de luta.
A disseminação do Jiu-Jitsu pela Ásia viria séculos mais tarde, quando cerca de AC 250 , 2 séculos após Buda, reinou na Índia Deva Nampiya Priyadisim, conhecido como Rei Asoka.
Abraçando o Budismo, Asoka desenvolveu-o, criando milhares de mosteiros dentro e fora da Índia. Desta maneira o Budismo, e com ele o Jiu-Jitsu, atingiram o Ceilão, Birmânia e o Tibete, depois toda a China, chegando finalmente ao Japão, onde cresceu e tomou grande impulso, emigrando em seguida para o ocidente. A entrada do Jiu-Jitsu no Japão é anterior ao nascimento de Cristo.
A morte do Rei Asoka trouxe várias conseqüências para o Budismo e, assim sendo, também para o Jiu-Jitsu.
Século XII - Século XVI
Da 1ª metade do século XII até o início do século XV, época de grande banditismo no Japão, constantes lutas entre diversos clãs feudais varriam o país. Não havia armas de fogo e a lei era a do mais forte, com isso mais de 100 estilos foram criados sob a forma de verdadeiras seitas de artes marciais de luta a serviço dos senhores feudais. O Jiu-Jitsu, tornou-se a partir da segunda metade do século XVI a maior arte marcial japonesa e sua maior riqueza. O Jiu-Jitsu se baseou nos fundamentos da flexibilidade, segundo os quais fracos e pequenos poderiam derrubar os grandes e fortes. Estes fundamentos vêm dos escritos clássicos de Lao-Tse, que exemplifica: "Não existe nada mais flexível e fraco no mundo do que a água e, todavia, não há nada que a supere no ataque ao que é resistente e duro. O que não tem resistência penetra onde não há espaços.", ou seja, seu pensamento é de que a flexibilidade, a maleabilidade e a livre mobilidade proporcionadas pela transformação instantânea, lhe permitam penetrar nos menores interstícios, constituindo fator capaz de se fazer desmoronar uma rocha inflexível e dura. Por isso o Jiu-Jitsu era chamado pelos japoneses de "arte suave", ou seja, a técnica de defesa pessoal que, com um mínimo de esforço, sem necessidade de força bruta, permite ao mais fraco defender-se e derrotar o adversário mais forte, utilizando a própria força do mesmo (a arte de vencer cedendo). Sendo os japoneses homens de pequena estatura, o Jiu-Jitsu os transformou em poderosos e invencíveis.
Século XVII ao Século XVIII
O auge de seu desenvolvimento ocorreu nos séculos XVII e XVIII, durante o shogunato To Kungawa, que por 250 anos isolou o país do resto do mundo. No campo, o número de praticantes era reduzido, e os segredos do Jiu-Jitsu eram guardados zelosamente por uma elite de iniciados. Com tal ciência um único samurai enfrentou e derrotou 10 homens.
Em meados do século passado, grave ameaça apresenta-se ao povo japonês, acarretando sério perigo ao seu grande segredo: o Jiu-Jitsu.
O Japão, ainda fechado à cobiça ocidental, recebe a visita de uma esquadra norte-americana comandada pelo comodoro Perry, em 8 de julho de 1853, que entregou uma carta intimando o shogun à abertura dos portos, o que veio a ocorrer em março de 1854, com retorno da nova esquadra sob o comando do mesmo Perry.
A princípio, foi a abertura dos portos de Shimoda e Hako Date, ambos pequenos e de pouca importância, vindo posteriormente a abertura de novos portos. Com a vitória do imperador sobre shogun em 1889, iniciou-se a fase Meiji.
Em 1871, o imperador introduz grandes modificações sociais, propiciando a penetração dos ocidentais. A "ocidentalização" do Japão e a conseqüente entrada estrangeira, iniciada nesta fase, trariam sérios problemas futuros. Os japoneses de pequena estatura com conhecimentos de Jiu-Jitsu tiveram condições de derrotar em uma luta os grandes e fortes ocidentais. Porém, a partir do momento em que estes aprendessem o Jiu-Jitsu, a supremacia técnica dos japoneses em luta corpo a corpo desapareceria. A curiosidade dos ocidentais em aprender o famoso sistema de luta, passou a ser o mais grave problema para os filhos do Império do Sol Nascente.
O surgimento do Judô
Resolveu então, o governo japonês, criar um falso estilo de Jiu-Jitsu para uso externo, sem eficiência como luta real. Assim sendo, por volta de 1880, um funcionário do Ministério da Cultura Japonesa, professor de Jiu-Jitsu, é escolhido para criar o Jiu-Jitsu falsificado para estrangeiros. Nasceu, então, o "Sistema Kano de Jiu-Jitsu", que mais tarde foi rebatizado com o nome de Judô, criado pelo funcionário do governo Jigoro Kano que, em 1882, fundou a escola Kodokan. Foram assim fechados aos olhos estranhos os segredos de sua arte milenar. Os estilos foram recolhidos. Os 113 estilos de Jiu-Jitsu e milhares de escolas tiveram seu nome mudado para Judô. Os ensinamentos de Jiu-Jitsu passaram a ser crime de lesa-pátria.
O Jiu-Jitsu esportivo, que nada mais é do que um esporte das quedas do Jiu-Jitsu baseado no fundamento do Jiu-Jitsu de que "vencer pondo-se da banda de sua própria força e utilizando a força do adversário" (vencer cedendo), foi exportado para o ocidente, acompanhado de grande propaganda. Os japoneses passaram então a treinar o Jiu-Jitsu escondido.
O Judô, porém, acabou se tornando uma febre no próprio Japão, quase extinguindo o Jiu-Jitsu.
Jiu-Jitsu Europeu - Século XX
Na Europa, através de publicações, algumas pessoas fizeram uso do Jiu-Jitsu. Em 1905, em Paris, René Dubois lutou contra um boxer. Dubois, o vencedor, era adepto do Jiu-Jitsu.
Em 1906 abriu-se em Berlim a 1ª escola alemã de Jiu-Jitsu sob direção de Eric Rahn (que havia aprendido a arte de Katsukuma Higa, autor de uma obra sobre o "Jiu-Jitsu de Gigoro Kano, surgida nos EUA em 1905). Segue-se então um eclipse, e o Jiu-Jitsu é considerado um esporte muito brutal para a Belle Époque, centralizada em Paris.
Na América, em 1916, o capitão Sillan Smith é tido como o 1º a obter a faixa preta no Kodokan e publica, no ano seguinte, "Os segredos do Jiu-Jitsu" em 7 fascículos.
Em 1947 é fundada a Federação Francesa de Judô e Jiu-Jitsu, porém, os termos deixam de ser confundidos, passando a ser coisas distintas. No entanto o Jiu-Jitsu sofre muitas influências que o diferenciam cada vez mais do Jiu-Jitsu japonês.