Entrevistas
Robson Gracie

 
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Presidente da Federeção de Jiu-Jitsu do Rio de Janeiro
FP: Porque nosso país foi tão privilegiado na arte de jiu-jitsu?
Robson Gracie: Não precisamos esquecer que nós estamos em um paralelo onde as coisas acontecem com muita paixão. Você vê o carnaval, você vê o futebol e vê as lutas. As lutas tiveram um motivo preponderante no começo do século passado.
Por volta de 1920 meu pai vindo de uma família tradicionalmente de pessoas abastadas, pessoas de alto nível de intelectualidade porque a minha família é, tradicionalmente, oriunda da diplomacia. Os primeiros Gracie que vieram para o Brasil, vieram fugidos da Inglaterra aonde repressão entre os irlandeses, tradicionalmente os irlandeses do norte, e os escoceses. Este foi o motivo que migramos para o Brasil. Nossa família pertencia tradicionalmente ao corpo diplomático do governo brasileiro. Na época, era um escândalo ver qualquer tipo de pessoa que fosse da alta sociedade se dedicando a uma coisa selvagem, a luta, que era usada por desclassificados, por bandidos que eram lutadores. Meu pai aprendeu com o japonês Koma no Pará e veio para o Rio de Janeiro e  assim se desligando do ramo natural da família que era a diplomacia. Um exemplo disso estava no governo passado onde meu primo era o ministro das relações exteriores: Luis Felipe “Gracie” Lampreia. Quando nós começamos a divulgar a luta e fazer demonstrações para poder implantar o jiu-jitsu tínhamos que brigar com qualquer um. Nós tínhamos que desafiar qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer hora, como se fossemos uns cruzados, caso contrário não teríamos implantado a luta aqui. Eu acho que isso é a preponderância da nossa profissão, da nossa origem, do nosso nome, foram isso que causou essa grande expansão da luta. Nós já estamos na quarta geração dos Gracie. E a nossa freqüência pelo nosso nome, pela nossa facção, pelos nossos parentes nós somos sempre aceitos na alta sociedade tanto é que o Jiu-jitsu só era ensinado, a coisa de cinqüenta anos atrás, ao pessoal da elite. Pouca gente tinha dinheiro para pagar as nossas aulas, daí ficou um esporte marcial de elite. O que encantou foi que qualquer um da elite, qualquer fraco, qualquer pessoa que não tivesse as pré-disposições físicas, que não tivesse o físico avantajado aprendia e obtinha sucesso e se defendia muita bem das brigas, disso ou daquilo com o jiu-jitsu. Eu acredito que isso foi o que levou às lutas principalmente o jiu-jitsu a fixar a se manter e a se expandir.
FP: O senhor acha que durante a ditadura militar as lutas de Vale Tudo diminuíram? Houve algum impedimento às lutas marciais?
Robson: Não rapaz. Eu acho que não houve essa pré-disposição de abafar esse ou aquele núcleo. Acho que esse golpe militar lançou um manto sobre uma nação inteira. A repressão foi geral.

FP: O senhor acha que a ditadura militar tentou impedir que qualquer valor individual se sobressaísse?
Robson: Pelo contrário. A nossa academia mantinha as figuras preponderantes do golpe. Nós tínhamos o Ministro Andreazza, nós tínhamos a maioria dos generais, tínhamos inclusive General Presidente Figueiredo que foi aluno lá por quase 10 anos. Essa foi uma época de sombra, ou como todos chamam, essa foi uma época de chumbo. Eu como pensava diferente à época fiquei proibido de ir à minha academia. A segurança não me deixava entrar na academia. Eu militei na luta armada, fui chamado de subversivo e fui preso inclusive. Eu por ironia das ironias a minha vida foi salva. Eu tinha sido preso com mais cinqüenta e a minha vida foi salva pelo General Figueiredo pelo conhecimento que ele tinha do meu pai. Morreram 49 e só eu escapei, milagrosamente. Aliás, não foi milagre, foi milagre entre aspas. Foi por causa do General Figueiredo estávamos todos lá: general tal, aquele, aquele outro. Foi uma coisa nefasta e anestesiou uma nação.
FP: Hoje vemos o jiu-jitsu como sendo a base para os lutadores na maioria das lutas e vista nos maiores espetáculos. O jiu-jitsu não acaba por “knock-down”, mas sim por submissão. O que poderíamos aproveitar para desenvolver mais o nosso esporte e o que se pode trazer de benefício?

Robson: Olha você vê o seguinte: “O velho”, figura notável. Não era porque era meu pai não, ele tinha uma visão do futuro quase que estarrecedora e eu tive uma conversar com ele há uns 40 ou 50 anos atrás sobre a profissão de professor de Jiu-Jitsu. Eu achava, que o futuro era bom porque você, evidentemente era o mestre, você tirava as pessoas do vício, transformava o caráter dos homens, ajudava a constituir o caráter das crianças, transformava frouxos em homens e homens em valentes. Eu questionava um pouco o que seria do meu futuro e do futuro das outras pessoas com a profissão de lutador de jiu-jitsu, de professor de jiu-jitsu. “Meu filho, não vamos demorar muito e você vai ver o nosso esporte, a nossa luta se transformar num grande mercado de trabalho. Em que o professor vai ser respeitado não com um professor, mas com um mestre de sabedoria, de ensino e de correção”. E realmente hoje, o que a gente está vendo? Você vive de jiu-jitsu, o professor Fernando vive de jiu-jitsu, eu vivo de jiu-jitsu, os meus filhos vivem de jiu-jitsu. Hoje eu acredito que tenha no Brasil, trabalhando em jiu-jitsu, diretamente com jiu-jitsu, setecentos professores, isso aqui no Rio de Janeiro e que tenham muito mais no país inteiro e no mundo também. Nós estamos exportando. Por exemplo, hoje eu liguei a televisão de manhã quem é que tava dando uma entrevista? Um lutador excepcional chamado Minotauro. Tava lá dando uma entrevista e mostrando seu sucesso. É uma pessoa que saiu do interior da Bahia “sem êra nem dêra”. Não estou falando da parte de caráter, eu admito é um caráter excepcional. Tem preparo cultural muito apurado, está com a casa hoje de mais de um milhão de dólares num distrito que faz bairro da cidade do Rio de Janeiro que é a Barra da Tijuca. Possuí uma conta bancária invejável, anda o mundo inteiro. Já mandou a mãe que vivia no sertão da Bahia, no agreste baiano, viver em Nova Iorque, vive nos Estados Unidos hoje com a família. Meus filhos mesmos eles são independentes hoje, o relacionamento deles hoje, é com a cúpula do mundo. Você vê por exemplo o Renzo ele é amigo particular de um dos homens mais ricos do mundo que é o Xeique Darlum dos Emirados Árabes.

FP:  Ele é bem quisto mundo inteiro e com certeza lhe dá grandes oportunidades.
Robson: Todo lugar do mundo. Ele recebe em casa a Madona, o marido da Madona é aluno dele. Ele hoje da aula para o FBI. O Roryon, nosso primo tava dando aula para a equipe de segurança do Clinton. Você quantos nós somos acreditados. Você vê se quiser, o Prof. Pinduka, o nosso Fernando ele faz hoje conferência no mundo todo. Quer dizer, foi criado num mercado de trabalho de excelência, o lutador principalmente de jiu-jitsu veio mostrar que não é uma profissão de animais, não é uma profissão de brutamontes, nós nos comportamos como excelentes lutadores físicos, mas que também nos comportamos como excelentes educadores como pessoas de nível cultural acima da média dos outros esportes. A visão do velho Carlos Gracie está se realizando agora. Eu estive em vários paises do mundo, quando a gente falava: “- tem jiu-jitsu, jiu-jitsu do Brasil. - Brasil Gracie? Gracia, gracia”. Isso lá em Moscou, na China, no Japão onde eu estive várias vezes, em Nova Iorque. A minha filha mostrou o passaporte em Miami para fazer um pagamento com travel-check aí o que aconteceu, a pessoa falou: “- Você é da família Gracie? A família Gracie, não precisa pagar”. E em quinze minutos estava uma fila pedindo autografo. Então o Renzo é recebido no mundo inteiro como se fosse quase um cantor de rock. Eu estou dizendo do Renzo, que é meu filho, mas vocês vêem a experiência por vocês mesmos, quando vocês chegam e dizem: - nós somos homens de Jiu-Jitsu.

FP: O diferencial do jiu-jitsu das outras artes marciais é porque o Jiu-jitsu é um esporte intelectualizado?
Robson: Você falou uma coisa séria. A gente não pode nem chamar o jiu-jitsu de arte marcial. Pressupõe-se arte uma habilidade pessoal, a arte da tauromaquia é o toureiro. Ele tem a capacidade de inventar, uns tem um estilo, futebol tem um estilo, o drible e não sei o que, o jiu-jitsu é muito mais do que isso, o jiu-jitsu é uma ciência do movimento da força e da contra-força, do equilíbrio e do desequilíbrio e ao mesmo tempo em que você adquire essa percepção esse ensinamento você adquire também a magistratura, ou seja, tranqüilidade do ensino, do aconselhamento você se torna um mestre. Quando a gente vê falar: mestre, mestre, mestre, o mestre é isso. A pessoa que adquire a capacidade do aconselhamento pela experiência que tem, pela tranqüilidade que tem, a pessoa que tem em si o seu poder e muitas vezes não é exercido até por uma questão de sabedoria.
FP: Falando um pouco da federação. O que a federação está desenvolvendo para que as academias voltem a encher, em fim, para que se dinamizem novamente?
Robson: O nosso objetivo à frente da Federação, e eu digo sempre, uma federação o nome já diz, é um agrupamento, um conglomerado de pessoas, de idéias, de entidades. Quando eu me propus ser o presidente da federação, o meu objetivo era justamente esse. Era criar um núcleo organizacional em que os membros praticantes, da nossa arte, do nosso jiu-jitsu pudessem se aconselhar, para que pudessem se orientar e que tivessem uma filosofia. Eu vejo na maioria das federações que tem por aí, as pessoas quando criam uma federação eles querem criar um cartório. Eles querem criar um balcão de negócios. Eles querem criar um armazém que vende diplomas, que vende fluência. Lá na nossa federação eu sou literalmente contra isso. Lá é a casa do praticante de jiu-jitsu. Quantas vezes me aparecem lá uma academia que não tem nem como pagar a inscrição de seus atletas. Isso é muito comum. O que acontece? Nós não cobramos. Às vezes chegam professores que tem que emigrar vão dar aulas não sei onde, não tem o dinheiro para pagar o diploma deles, nós damos de graça. Nós aconselhamos, nós damos um direcionamento e pedimos sempre que essas pessoas que esses professores tenham uma conduta ética baseada na nossa arte. Então hoje o que está ocorrendo parte a essa violência que está gerando aí no nosso país em que nós somos acusados: “o jiu-jitsu de estar criando monstros sociais”, “brigadores”, não é? Nós estamos então tentando junto com o poder legislativo do Estado e do Município leis que venham a ajudar a regulamentar o exercício da nossa profissão. Nós temos que banir dela as pessoas desvirtuadas, as pessoas anômalas ao bem estar social. Então é por isso que estamos junto com as autoridades, com os deputados, com os vereadores com os legisladores, criando leis que se adaptam e que representem os nossos conceitos.

FP: Essa questão com o CREF, que veio na tentativa por um lado válida formando o primeiro conselho de educação física, coisa que não havia antes, mas por outro lado tem atitudes difíceis se de compreender. O que o senhor tem a falar do CREF e dessa posição em relação aos professores de Jiu-Jitsu?
Robson: O Conselho Regional de Educação Física (CREF) foi criado por uma lei em que seu mentor principal é o professor de Educação Física chamado Jorge Steinhilber. Essa figura veio no rastro do reconhecimento da profissão de professor de Educação Física. Logo em seguida ele criou esse conselho: o Conselho Regional de Educação Física, e que infelizmente ao invés de se ater à lei para a qual foi criada, ou seja, para cuidar das coisas dos professores de Educação Física, ele quis entrar num hiato, num vácuo para poder açambarcar as outras profissões. Ou seja: as artes marciais, de forma geral, a yôga e as danças submetendo a esse conselho criado. A lei foi criada para os profissionais de Educação Física, e daí o que aconteceu, ele quis criar cursos numa manobra vil em que todas as pessoas que tivessem qualquer tipo de ginástica, de movimento tivesse que estar sujeitas a batuta dele, a ganância dele, porque inventou um  curso de preparação. Cobra dois mil e pouco, mil e pouco, sei lá quanto é que é, e esse curso não serve para... Só serve para professores de Educação Física. Então o Dr. Jorge Steinhilber, o Prof. Jorge Steinhilber eu classifico como se fosse um solo de salto que vive a dispensa do suor dos atletas. Tentou isso aqui na Assembléia Legislativa que eu interrompi eu não deixei, ele nos pegou desavisados foi para Brasília. E hoje mentindo, contando estórias, ele tenta atrelar à ele financeiramente na dependência financeira de pagar a ele o resto das artes, mas para você ter uma noção esse menino de Jesus aí, Carlinhos de Jesus, ele dança, ele é o responsável pela coreografia de muitas escolas de samba para aquelas baianas, pois ele não quer que o Carlinhos de Jesus se filie à ele porque faz um movimento de braço? Aí fazer um curso... E ele também não quer que a yôga que não tem ginástica nenhuma... da meditação, se atrele à ele. Ele não começou a chantagear as academias, os professores de artes marciais que vão dar aula nas academias de ginástica. Pedindo inclusive a cabeça desses professores, ameaçando o dono de academia que tinha lá modalidade dessa ou daquela luta. Se aquele professor não fizesse o curso ele ia multar e fechar a academia ginástica. Quanta gente esse cara desempregou, quanta gente esse cara colocou na rua? Então é essa a figura e se você encontrá-lo verá nele o personagem de cobrador de impostos. Um cobrador de promissória. Está aí a figura escrita. A gente podia ter posto ele até na Bíblia, na figura bíblica de cobrador de impostos. Então rapaz é com isso que a gente tem brigado é com isso que a gente tem tentado preservar e é para isso que serve a federação, preservar os nossos professores e não cederem a essas chantagens. O Ministério Público Federal o proibiu de cobrar de se imiscuir com das danças, com as artes marciais e com a Yôga.

FP: Quer dizer isso ele não tem mais, ele não legisla nada sobre isso?
Robson: Está pro-i-bi-do, pelo Ministério Público Federal vai vendo só.

FP: Ele se conformou? Ele está tentando?
Robson: Ele está tentando, o filão é muito grande, é muita academia. Ele chega lá e chama o dono da academia, diz: “ - Aqui vocês tem o CREF ? Não? E aquele cara que está dando aula de capoeira tem o CREF? Não? Meu amigo se ele não for fazer o curso eu vou te multar.” Você que está numa parceria com o cara, não quer ser multado. Ameaça fechar. Usou a polícia, enganou o chefe de polícia, para isso. Eu falei para o chefe de polícia “- Não, não, nós fomos enganados”. Tanto é que o chefe de polícia fez circular um boletim, desautorizando a ida de qualquer policial a qualquer batida dele nas academias. Ele inventa para o chefe de polícia que os caras estavam usando anabolizantes. Então eu vou lá ver se eles estão usando anabolizantes o senhor manda um carro comigo? E ia para a delegacia local e ia um carro com ele.

FP: E lá era outra estória?
Robson: Era outra estória, com a polícia na porta. O cara via chegar a polícia. O cara dizendo que ia fechar com a carteirada. Hoje eu quase que perdi a paciência com ele.

FP: Mas vontade não faltou, não é?
Robson: É. E tem uns vendilhões. O Silvio Pereira dessa liga Estadual está lá com ele. Está fazendo curso.

FP: E a liga estadual, é uma dissidência?
Robson: Era, mas eu desvinculei.

FP: Mas e a autonomia? Como é que está fazendo?
Robson: Não tem, aí que está a coisa. Ela faz parte do sistema estadual de esporte, mas hoje infelizmente a nossa Constituição diz que é livre a associação. Nós também estamos vendo isso. Nós estamos vendo isso também são outros crescentes que a gente tem aí. O presidente da federação de Karate, o Fernando, eu fui falar com ele: “Que estória é essa de liga? - Puxa Robson eles estão me dando 80% do curso? - Quer dizer que com 80% tu vende os seus praticantes?”. Você obriga a gastarem um dinheiro para receber um diploma que não vale... Não serve para nada, não dá nem para você levar esse papel para o banheiro, porque ele é muito grosso.

FP: Mas qual é a função da ABRAF em relação a isso tudo, e ainda, o senhor não vê a ABRAF enfraquecida ?Porque as federações não se filiam? Ou porque não seguem o contexto da ABRAF?
Robson:  É porque o indivíduo é que é o pernicioso. Você vê, por exemplo, hoje lá no Jornal, hoje você vê o Juiz que está vendendo a sua sentença, que está vendendo sua consciência, está vendendo a justiça que é última coisa que a gente pensava que tinha aqui. Então estes são os vendilhões. É isso que a gente tem que concorrer é isso que a gente tem que lutar. Eu podia ter me aliado a ele. Olha quantos cursos eu ia fazer, olha quanta grana eu ia colocar no bolso, olha quantas vezes eu ia ser chamado de Judas, olha os “trinta dinheiros” aí... Venderam Cristo rapaz. E eu não sei se era o Jorge Steinhilber que estava lá...

FP: Professor o senhor como sendo pai de “feras”, conta um pouco como foi o crescimento dessas feras como é que o senhor como um bom pai, grande mestre, conta um pouquinho como foi o crescimento desses camaradas que hoje estão aí engrandecendo nosso esporte.
Robson: Deixa eu te explicar. Eu jamais dei uma aula para um filho meu. Eu olho para um filho meu e eu digo esse cara não precisa de professor. Faz parte do DNA dele. Se jogar ele lá e colocar um quimono no ringue ele vai acabar aprendendo a lutar. Então meus filhos já estiveram em várias academias às vezes alguns nem de Gracie. Porque eu já sei, é inadmissível que um Gracie já não sabia fazer aquele movimento sozinho. Eu nunca tomei aula de ninguém. Meu pai nunca me disse eu gosto desse golpe aqui, bota essa perna ali, ou pega aqui, ou segura... De jeito nenhum. Eu de olhar, de freqüentar de estar ali eu acho que isso aí está no nosso DNA. Faz parte, é uma parte parece que biológica da nossa família. É o que eu procuro dar é orientação psicologia, é educação. Eu uma vez eu fui ao meu pai, estava num momento da vida meio duvidoso, eu estava achando que a vida não era assim como deveria ser papai não sei o que nem deixou eu acabar ficou me olhando e disse: “- meu filho seja um herói”. Foi embora. Então é isso que eu digo para meus filhos: “- Meu filho seja um herói”. É isso que eu digo para as pessoas que a gente está junto que a gente gosta. Essa noção do heroísmo da vivência como herói é que é importante, o resto, a técnica, o trabalho tudo vem depois. Meu pai? “ - Puxa, não tem medo de nada? Um garoto perguntando para ele. - Tenho. - De quê? - Tenho medo de temer”, falou. Não tenha medo nunca. Não seja incauto, não seja precipitado raciocine tudo que você pode, mas não tenha medo de nada. O medo é um sentimento aviltante. E o velho acreditava, em outras coisas além da normalidade, da para-normalidade ele tinha visões, ele via muita coisa, então teve uma vez: “- Meu filho eu vejo as coisas como num filme. O sujeito quando ele está com medo fica com a aura em torno dele marrom como a cor do cocô. Quando ele mente a aura fica parecida”. Então, como é, é isso que eu quero que você aprenda o medo te leva a lugar nenhum, em canto nenhum, em hora nenhuma. Não seja, é precipitado, tenha cuidado com a vida, porque a vida... Tem que se ter cuidado, mas não tenha medo.
Então é isso que eu aprendi às vezes você sabe que todos nós, temos o momento de vacilação de dúvida, é isso, a gente tem sempre.

FP: Sabemos que existem muitas e muitas estórias, poderia deixar uma nesta entrevista?
Robson: Olha eu tenho um exemplo fantástico, vocês conheceram o Moacir Ferraz. Figura fantástica, Moacir Braile Ferraz. Esse é um faixa preta de jiu-jitsu e um faixa preta muito especial e ele teve câncer. Morreu de câncer. Uma semana antes dele morrer eu liguei para ele, eu não quis ir lá vê-lo ele tava lá no Fundão (Hospital Universitário Clementino Fraga Filho), eu não queria ver o Moacir doente. Eu liguei para ele: “- Como é que é Momô ta tudo bem ? - Não tá bem não! Ele fala muito assim. - Eu to fudido! Eu vou morrer, mas eu não quero saber quem é que está do lado de lá, se me sacanear: ou Deus ou o diabo eu vou enfiar a porrada!” Figura inteiriça rapaz.
Agora você vê aquele velho pesava o que? Sessenta e poucos quilos, ta entendendo, olhos azuis cabelinho loirinho... Lembro... Tudo curto... A figura de um lutador... Resolveu criar o Vale Tudo para emplacar o Jiu-jitsu, para implantar a luta que ele achava que era a maior luta do mundo. Porque agora eu estou entendendo, agora nesse momento, porque ele ensinava você ter a consciência e a não ter medo. Te dava poderes para você enfrentar tudo, e, principalmente o lobo do homem que é o próprio homem. Você enfrenta o homem você vai enfrentando o resto, e o resto é conversa. O velho por uma questão de fidelidade à luta dele. Ele me contou uma vez que foi lutar no subúrbio. Isto deve ter sido lá pelo 1930, trinta e pouco. E tinha um negão enorme. E negão não tem nada a ver com motivos raciais. Negão, negão, negão é porque o negão é pretão mesmo. E o negão tava bêbado. Ele se agarrou com o negão, o negão pegou os testículos dele. Isso aí! Com as duas mãos e começou a apertar. O velho dando porrada nele e ele pendurado nos testículos do velho. Ele falou meu filho chegou numa hora que eu só fazia força para não desmaiar. Toda a minha concentração era para eu não apagar. Para poder pegar o crioulo depois. Não desmaiei, o crioulo cansou e largou. Agora você o imagina deitado. “Eu me deitei, fixei o olho no céu para não apagar”. Era num campo de futebol. “Quando o crioulo cansou que acabou eu me recuperei quebrei as duas pernas dele os dois braços e a cara dele”. Para você ver o que é uma filosofia. Olha a facilidade de dar duas pancadinhas e pede para parar. Jamais passou na minha cabeça pedir para parar. Pode até ser uma atitude antidesportiva minha. Você nem reconhecer o poder do outro, mas não para na minha cabeça e nunca passou. E o Renzo me fez uma dedicatória no livro dele que eu guardo com o maior carinho até hoje e ele diz o seguinte: “Quando eu tiver muito velho e esticar as pernas eu quero ter vivido de tal forma que os postes sabiam que eu vivi de acordo com a filosofia de minha família”.  Quer dizer, são estas coisas que a gente passa para o filho e eu nunca disse a ele eu nunca cobrei dele. Não vou cobrar dos filhos e não vou cobrar dos netos, não vou cobrar de ninguém, mas isso faz parte do DNA.
 
FP: Já está na mente?
Robson: Como eu acredito que isso foi se alastrando porque a nossa causa, o nosso jiu-jitsu não é fruto da nossa família, é fruto de um Fernando Pinduka, você Armand, e de centenas de milhares de outros. O velho é como um rio, que começa no alto da montanha, fininho, de uma nascente, fininho, e vai se engrandecendo e vem se formando um rio grande pelos seus afluentes. Ele vai enchendo, vai enchendo, quando ele desaguar no mar. Ele não é aquele riozinho que começou no alto da montanha ele é um todo. Nós somos um todo. Está entendendo, quer dizer, tenham vocês, tenham o pessoal do jiu-jitsu, até as várias versões o jiu-jitsu não é o que seria hoje.

Você vê o Conde Koma, por exemplo, é um homem das mil lutas. Koma veio do Japão, ganhou esse título lá por ter sido campeão mundial e veio com a função comercial aqui no Pará. Pelos os interpretes dos plantadores de pimenta do reino que existia no Pará.  Ainda era aquele ranço da descoberta das especiarias, quer dizer, “o que plantou aqui...” Aquele colonialismo tudo bem, mas o Koma veio do Japão, pela América Central, passou pelos EUA, passou pela Europa, passou por Cuba, veio para o Peru e acabou aqui. Se não fossemos nós ninguém saberia do seu Koma. Aonde ele passou não deixou rastro, ele só deixou rastro aqui, porque, nós divulgamos o que ele trouxe.

FP: Mas foi verdade que ele pediu para seu pai não divulgar?
Robson: Falou, mas uma vez por causa da coragem do velho. Ele quis demonstrar a “morte aparente”, quer dizer, “morte aparente” o estrangulamento que apaga. E chamou as pessoas que tinham por lá... Quem queria experimentar, o velho disse: “- eu. - Não, não, você não. Você não porque se eu te der um estrangulamento o estrangulamento enfraquece o pescoço.” Se você lavasse três e domir, qualquer apertinho você desmaia. Você não não deixa ninguém nunca te deixar desmaiar para você vai enfraquecer o pescoço. Agora o que eu vou te ensinar eu vou te ensinar só a você, não ensine isso para ninguém”.
FP: E professor para a gente terminar, eu inclusive aproveito a oportunidade de em nome do professor Pinduka, nosso mestre nos ensina e nos orgulha ser brasileiro e defender essa bandeira da nossa família agradecemos e aproveitamos para agradecer em nome de todos os participantes que foi um grande prazer estar aqui. A última pergunta: quantas lutas de Vale Tudo o senhor já fez e o que parece o senhor era bom de porrada legal não era?
Robson: Não. Estória. Eu fiz umas quatro lutas. Naquela época não tinha muito, era uma luta por ano. Eu era o menorzinho, era o pequenininho então brigava mais do que lutava. Eu era o tira-teima na academia. “Pega aquele ali! Eles me chamavam e eu lá ia. Tava ali com sono, cansaço, com febre:“Pô eu? Eu?”. E lá ia eu. Mas os vivos geralmente eram o Carlson, Moacir, era nosso amigo, aqui Fernando, quer dizer, era o pessoal que geralmente lutava. Eu fui mais numa espécie de orientador, um pouco da filosofia. Acho que Deus quando te dá um físico pequeno ele te bota esperto para você não sucumbir. Botar pequeno e burro o negócio pega, que Deus me perdoe”.