Entrevistas
Prof. Reyson Gracie
 
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Fernando Pinduka: Prof. gostaria de saber como foi introduzido o Jiu-jitsu na boa terra, na Bahia?

Reyson Gracie: Na Bahia o Jiu-jitsu existia a nível informal, quando meu sobrinho Charles Gracie fundou a federação de Jiu-jitsu da Bahia, pelos idos de 1995. Eu cheguei para lá me estabelecer ao final de 1996.
No início de 1997 assumi a presidência da federação. O trabalho que estamos desenvolvendo lá pode trazer grandes resultados pela possibilidade de intercâmbio com o Rio de Janeiro. Lá encontrei bons alunos e um bom trabalho de iniciação feito pelo charles que eu procuro dar continuidade.Poderia também falar, até com mais propriedade do Jiu-jitsu do Amazonas que eu tive a honra de fundar no ano de 1977, ano de nascimento da minha folha Kendra. Fui convidado inicialmente pelo senador Arthur Virgílio, pai do também deputado Arthur Virgílio Neto faixa preta de Jiu-jitsu ao final de 1976 e pude constatar que o material humano era da melhor qualidade e resolvi me estabelecer. Permaneci durante um ano, e formei uma equipe que deu sequência ao meu trabalho no qual se destacou Luís Façanha que foi meu carro chefe, era o nº1. Poderia também citar Fernando Façanha, Alfredo Jacauna, Kako Caminha dentre outros.
O Luís preparou alguns alunos, em particular os irmãos Monteiro, que deram sequência maior ao Jiu-jitsu amazonense. Inúmeras academias do Amazonas são saídas da academia Monteiro.
OJiu-jitsu amazonense tem influência de duas linhas; uma a do Prof. Royler Gracie, representado pelos irmãos Monteiro e a outra do Prof. Oswaldo Alves na pessoa de Humberto Barbosa Jr.. A partir daí surgiram diversas academias.
Podemos dizer com muito orgulho que o Amazonas hoje é o 2º polo de Jiu-jitsu não do Brasil, mas do mundo, pois lá temos campeões a nível de Brasileiro, de Panamericano e Mundial.
O intercâmbio é muito grande entre o Rio e Manaus. Vários professores e atletas são convidados a fazer clínicas, seminários e demonstrações periodicamente.
É importante frisar a obstinação e determinação do amazonense que faz com que supere todos os obstáculos para virem se reciclar no rio, participar de competições, etc.

FP: O que você acha das críticas destrutivas ao Jiu-jitsu ?

RG: Veja bem, o Jiu-jitsu atualmente à nível de Panamericano e de Mundial é o esporte que despeja o maior n° de medalhas no brasil. E ser contra o Jiu-jitsu é o mesmo que ser contra o Brasil. O que acontece é que muita gente, inclusive não sendo do Jiu-jitsu, quer pegar uma carona na cauda do cometa. Todo mundo quer estar sempre ao lado de quem faz sucesso e é vencedor. Quando, por ex., um time de futebol se sagra campeão todos vestem a camisa do vitorioso. O mesmo vem acontecendo com o Jiu-jitsu brasileiro que está com uma projeção arrasadora no mundo inteiro gerando mercado de trabalho para milhares de pessoas e empresas importantes.
Paralelo a isso existem inúmeras academias "fundo de quintal", não cadastradas nas federações de seus estados, mal orientadas por pseudos professores que possuem apenas um nível médio de conhecimento os quais induzem os alunos a um comportamento equivocado e anti-social.
Ademais não é só no Jiu-jitsu que ocorrem esses equívocos; isso para não falar nos "assaltos" aos cofres públicos e as manifestações violentas nos estádios de futebol, que muitas vezes resultam em mortes.
O Jiu-jitsu que nós aprendemos e tratamos de repassar sempre teve basicamente um enfoque pedagógico/educacional; é justamente o oposto dessa violência irracional e gratuita que nós estamos presenciando neste final de milênio.
Temos que reconhecer, por outro lado, que muitos pais de alunos também são negligentes e irresponsáveis ao colocarem, por motivo de economia, seus filhos em academias ditas "fundo de quintal". É quando o barato sai mais caro!

FP: Dentro desse processo evolutivo pelo qual o Jiu-jitsu passa no Brasil e no mundo, na sua visão qual seria a possibilidade do Jiu-jitsu estar num patamar olímpico?

RG: Quem melhor poderia responder seria o presidente da Confederação Brasileira, Prof. Carlos Gracie Júnior, que está empenhado na implantação do Jiu-jitsu brasileiro, através de professores formados em sua academia em diversos países, os quais já possuem federações locais filiadas a Federação Internacional de Jiu-jitsu Brasileiro.
Estou ansioso para que o Jiu-jitsu esteja nas olimpíadas o mais rápido possível porque isso vai resgatar todo esse vexame que o Brasil tem passado pelo fato de não trazer nenhuma medalha de ouro até agora. Ë inconcebível que isso ocorra num país de dimensão continental como o nosso e nenhuma providência tenha sido tomada até o momento.

FP: Reyson, vc citou muito a academia Gracie Barra.... Algum motivo especial?

RG: Apesar de existir um número infindável de excelentes academias, somos levados a reconhecer que as academias - Gracie Barra e Gracie Humaitá representam o que existe de mais refinado em termos de avanço técnico e também como fábrica de exportação de atletas e de professores que projetam a imagem do Brasil/Jiu-jitsu. Esses dois centros de força e energia produzem resultados diferentes e extremamente impressionantes. De um lado a Gracie Barra que envia representantes para o exterior que se espalham em vários países com o intuito de viabilizar o Jiu-jitsu nas Olimpíadas. Do outro a Gracie Humaitá que vem dando o indispensável combustível técnico para que o Amazonas, através do seu invejável material humano, continue se impondo como o segundo pólo de Jiu-jitsu do mundo. Os paulistas, com todo o seu poderio econômico/financeiro, que me perdoem!


FP: Reyson, existe alguma briga interna da família Gracie como a mídia procura insinuar?

RG: A coisa se espalhou muito, entendeu, então novos espaços foram criados e isso é uma coisa natural. É como uma família grande que cresce muito. E aí há necessidade de novos espaços. E isso de certa forma foi benéfico para o Jiu-jitsu. Houve uma grande necessidade que o Jiu-jitsu não ficasse restrito só ao Brasil. Hoje estamos vendo o Jiu-jitsu se expandindo pelo mundo inteiro. Como é o caso da população chinesa também que cresceu demais e está se expandindo. (Soube até que estão "invadindo" o país, vide a colônia chinesa em São Paulo e outros estados por aí...).
Isso é consequência do progresso. Agora, as discussões ocasionais entre professores e até mesmo dentro de famílias, é um mal necessário. É sinal que existe um clima de democracia. Que existem opiniões diferentes e divergentes. Já pensou se todo mundo pensasse de modo igual? Como disse o dramaturgo Nélson Rodrigues: "toda unanimidade é burra".
É necessário que haja a tese e antítese para se chegar a síntese. Se uma pessoa só fala e ninguém contesta, começam a surgir os "donos da verdade". O Prof. Hélio Gracie, por ex., fez um grande trabalho, mas surgiram novos talentos e gênios como Rolls Gracie, Rilion Gracie, Royler Gracie, Jean Jacques Machado, Renzo Gracie e tantos outros. Assim muita coisa que o Prof. Hélio fez no passado está sendo aproveitado nos dias de hoje, inclusive sendo aperfeiçoada.
Eu acho que tudo tem o seu tempo. Nada é eterno. É como a própia vida: uma coisa transitória.
Tudo isso que está acontecendo é bom para o Jiu-jitsu e as novas gerações vão nos surpreender muito. Quem poderia imaginar um dia que o Jiu-jitsu brasileiro fosse ter esse impulso extraordinário e impressionante que está tendo, com essa velocidade incrível. Eu acho que é por aí.

FP: Qual a utilidade da globalização, através da internet, para o Jiu-Jitsu?

RG: Acredito que seja bom não só para o Jiu-jitsu, como para qualquer outro esporte pelas facilidade e velocidade na troca de informações.
Creio também que a liberdade deve ser acompanhada da responsabilidade em tudo o que se declara.

Agradecimentos ao restaurante Sushi Copa, local escolhido para a realização da entrevista.