Entrevistas
Pedro Gama Filho

 
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Professor
Entrevista com o Professor Pedro Gama Filho, um dos maiores divulgadores do Jiu-Jitsu, fundador da escola de Ed. Física da Universidade Gama Filho e atual presidente da Confederação Brasileira de Luta-livre Olímpica.
FP: Na sua concepção o que é fundamental para preparar o professor de uma forma mais séria e consistente a fim de que o Jiu-Jitsu fosse mais respeitado filosoficamente didaticamente e acima de tudo dissociado dessa imagem de violência que a mídia tem passado ao grande público?
Prof. Pedro: Parece-me que a própria Secretaria de Esportes e Lazer se prepara para cobrar, neste momento, o preparo do professor de artes marciais. O Jiu-Jitsu vem num crescimento desabalado. Há tempos vem sendo ensinado em colégios, academias e universidades. Sendo assim, há necessidade de uma exigência maior, mais firme.
De uma escolaridade de um Curso de Educação Física. De uns seis anos para cá, virou modismo, como aconteceu com outras artes marciais. Isso fez com que praticantes, faixas roxa e marrom, resolvessem dar aulas devido a grande procura. Não são professores. Ainda não estão preparados, didaticamente, para passar os valores pedagógicos do esporte aos seus alunos. Consequentemente, temos um professor despreparado, que vai acabar repassando para seu aluno esse despreparo natural. A maneira de controlar isso seria a Secretaria de Esportes e Lazer fazer a cobrança, ou melhor, exigir um certificado desses professores, atuando diretamente junto às Confederações e Federações, exigindo, fomentando cursos sérios, profissionalizantes, que proporcionassem uma boa preparação pedagógica e técnica. Não cursos com fins comerciais (os ditos cursos "caça-níqueis") mas algo ao alcance de todos, onde poderão ser repassados conhecimentos de didática, de pedagogia, de ética, de primeiros socorros, etc. Enfim, de permitir que esses professores preparados, formados em educação física tenham maior incentivo e oportunidades de mostrar seu trabalho. Por exemplo: os cursos promovidos pela Confederação e Federação deveriam ser ministrados por esses professores; não o são. Isso tem que ser cobrado. É a única maneira de tudo começar a se organizar, para que outros objetivos maiores possam ser atingidos. Parece-nos, que isso será feito pela Secretária de Esportes e Lazer. Até porque esporte é educação. Existe, inclusive, uma exigência legal da Secretaria de Educação para se dar aulas. Neste tópico, é extremamente relevante que não podemos ignorar o "notório saber". O professor de "fato", mesmo não de "direito", tem que ser reconhecido.

FP: Em relação ao Jiu-Jitsu desportivo, como o Sr. vê a organização do calendário com diferentes campeonatos, torneios independentes e as diferentes associações de classe ( ligas, associações, federações, etc.)?

Prof. Pedro: Infelizmente, não vejo bem. Estou numa posição delicada para fazer críticas às Federações e Confederações, uma vez que fui convidado a presidir a Confederação Brasileira de Luta Olímpica. Mas o que eu vejo, principalmente, é uma cronologia desordenada nos nossos campeonatos. Você aqui luta primeiro o Mundial, depois o Brasileiro, e por último, o Estadual. Pelo que me consta, e o bom senso determina, você deveria começar pela seletiva para o estadual, os campeões passariam para o Brasileiro, e os campeões deste, representariam o país no Mundial. O que vemos no nosso mundial - 500 à 700 participantes brasileiros e alguns, vinte ou trinta atletas estrangeiros, é reflexo disso! Penso que já estamos em condições de determinar uma equipe brasileira e de fomentar a vinda de equipes de países como a Rússia, França, Suécia, Portugal, Finlândia, Espanha, USA, Japão, Austrália, Itália, Inglaterra, Holanda e outros, pois o Jiu-Jitsu já está bem divulgado e com numerosos atletas. Assim poderíamos ter um verdadeiro Mundial. Mas parece que isso não vem ao caso.... o que importa é a quantidade de atletas a um preço exorbitante. Paga-se um absurdo de inscrição, paga-se um absurdo de carteirinha... Outro caso é o Pan Americano: só vai quem tem dinheiro para ir; não quem se classificou! Por isso, vemos garotos que são campeões Pan Americanos e quando chegam no estadual, perdem na segunda luta. E nem participam do Brasileiro, pois não se classificam...
Se isso não for mudado não alcançaremos nenhuma solução aos nossos objetivos. Esta formatação inadequada dos campeonatos não permite que você atinja um objetivo. E qual seria esse objetivo? As olimpíadas! E eu lutei, durante muito tempo, para direcionarmos nossas forças para esse projeto. Para se participar das Olimpíadas é necessário algo em torno de 70 federações. Ora, a maioria dos países acima citados, já possuem federações e, com um Campeonato Mundial ou Internacional de alto nível, mais países se agregariam, pois o reconhecimento mundial da eficiência do Jiu-Jitsu, através dos inúmeros torneios e campeonatos de Vale Tudo, fez com que o número de praticantes do esporte tenda a crescer em todo o mundo. Mas não existe essa preocupação. Parece que o valor comercial, e não o valor técnico, é o que caracteriza atualmente nossas competições.
Prof. Pedro: Primeiro com a preparação de professores, conforme já comentamos, para que possam divulgar lá fora a exata informação do nosso esporte. Depois com apoio da Secretaria de Esportes e Lazer, e se houver um projeto sério, por parte da CBJJ, com finalidades olímpicas, acredito que até mesmo o próprio Presidente do COB, Carlos Arthur Nuzmam, ajudaria na divulgação e nos trâmites necessários.
FP: Prof. o senhor disse que estamos no ponto de fomentar a formação de equipes em outros países? Como isso se daria e quem apoiaria?
FP: Mas Prof. como podemos apresentar uma carta ao Comite Olímpico se aqui no Brasil, as regras mudam de estado para estado, até mesmo de campeonato para campeonato? Como podemos fazer para unificar essas regras?

Prof. Pedro: Continuo dizendo, voltamos ao problema da Confederação. Há muito tempo eu luto pela carreira de Juiz. De um conselho arbitral. Para isso temos que estabelecer com maior rigidez as regras. Ninguém quer ser árbitro. O árbitro é o homem de confiança da Federação ou Confederação. Ele arbitra em nome e conforme a entidade.

Tem que ter apoio em decisão polêmica. Aí esse árbitro é xingado, desacatado, é agredido, é colocado o dedo no nariz e a Confederação não toma nenhuma providência.... Você não pode ter o árbitro. Se ele é desacatado, a confederação está sendo desacatada. Se ela não toma nenhuma medida quanto a isso, perde a credibilidade.
FP: O senhor acha que existe um certo nepotismo das entidades das classes esportivas do Jiu-Jitsu?

Prof. Pedro: Com certeza! Existe não apenas no Jiu-Jitsu, mas em todas. É preciso se equacionar as vantagens pessoais com as vantagens do esporte. Todos nós sabemos que os Presidentes de Confederações ou de Federações acabam tendo alguma vantagem. Não conheço nenhum que tenha saído ou que queira sair. Ou que tenha passado seu cargo por acreditar que seu sucessor trabalhasse muito bem. Nunca vi. Desde 1960 eu milito no esporte. Já ví Presidente ser derrotado, o que já é muito difícil, pois o jogo de vantagens é intenso, e você acaba tendo as procurações na mão, o que determina um certo controle... Acho, também, que o Presidente de uma Confederação não estaria lá em tempo integral se não obtivesse alguma vantagem. Afinal ele tem família, obrigações, etc. É apropriado que ele tenha vantagens. Se um atleta tem um patrocínio conseguido através da Presidência, que ele tenha uma parte desse patrocínio. Aliás, já é regra. Pode estar esquecido, mas isso faz parte. Quando você não equaciona isso, e o seu bem estar fica acima do bem estar do esporte, aí tudo vira um caos. São trocas de acusações, desconfianças, que terminam vulgarizando negativamente o esporte. Isso é, infelizmente, uma triste constatação do esporte nacional.


FP: Prof. como foi o convite para presidir a Conf. Bras. de Luta Livre Olímpica?

Prof. Pedro: Fui escolhido por 17 (dezessete) Federações que não "aguentavam" mais uma inércia de vinte anos. Basta dizer que apesar de ser um esporte olímpico, a antiga Confederação não mandou nenhum representante a Sydney. E a primeira coisa que exigi, para aceitar o convite, foi determinar o período de gestão. Serão 08 (oito) anos, pois em 04 (quatro) não vemos condições de se fazer nada, porque ela está no zero. Depois disso, só poderei ser reeleito com 70% de aceitação. Como segundo ponto: estou dando voto ao atleta! Todo atleta laureado em Pan Americano, Mundial ou Olimpíada, fará parte de um conselho com direito a voto. Se ele receber medalha de ouro, seu voto terá o mesmo peso que o das Federações. Assim terei, em oito anos, uns seis ou sete atletas votando, que a meu ver é o principal. O atleta que chega a uma disputa do ouro em Mundiais ou Olimpíadas sabe, melhor que ninguém, as necessidades do esporte. Sabe quem trabalha pelo desenvolvimento do esporte. Sei que vou brigar muito por causa disso, mas não adianta...
FP: Quais são seus planos imediatos?

Prof. Pedro: O COB prometeu me dar todo apoio. Hoje, nós temos no Brasil, cinco ou seis atletas que estão engatinhando em termos mundiais ou olímpicos, mas que já podem disputar um Sul Americano, um Pan Americano. Pretendo mandá-los à Turquia ou Estados Unidos para um período de treinamento. Ficarão numa Universidade fazendo um curso intensivo específico durante esse ano todo para disputar o Sul Americano em maio de 2002.
Penso, também, em trazer dois ou três cubanos, que são de uma escola fantástica. Minha idéia é também trazer um "russo desses", Karelin, para fazer a divulgação. Acredito que o COB poderá patrocinar, pois na Luta Olímpica são 92 medalhas possíveis - 46 de homens e 46 mulheres, bronze, prata e ouro.
FP: Prof. Pedro, fale-nos um pouco da sua relação com o esporte de lutas. Como começou, quando, com quem, se continua treinando? Ou seja, sua história como atleta. Estamos curiosos também em saber como foi a criação da Escola de Educação Física na Universidade Gama Filho.

Prof.Pedro: iniciei-me no Karate com o Prof. Sadamu Uriu, praticando durante anos. Posteriormente, procurando me aperfeiçoar em artes marciais, passei ao Jiu-Jitsu. Isso aconteceu numa academia que acabara de ser inaugurada, do Prof. João Alberto Barreto. Mais tarde, os Profs. Rayson Gracie e João Athayde abriram uma academia em Copacabana que ficava mais perto para mim. Na sequência o Prof. João Athayde comprou a Academia Haroldo Brito, de Judo (o Prof. Haroldo Brito era egresso dos Gracies) que permaneceu pouco tempo com ela, decidindo-se dedicar à Advocacia. Então, fiquei com a mesma, que já possuia uma equipe respeitável. Daí minha proximidade e afinidade com o Judo. Nesta época, o Jiu-Jitsu não fazia campeonatos e dediquei-me, então, a acompanhar os atletas de Judo da Gama Filho. Como praticante, porém, fui esporádico. Pratiquei Luta Livre com o Prof. Roberto Leitão e Ricardo Calmon vários anos. Na época não havia essa distinção de hoje; treinávamos juntos. Posteriormente, treinei Boxe, durante quase seis anos, com o Prof Santa Rosa, um abnegado deste esporte. Enfim, mesclei todas e fiz cumprir a minha finalidade, principalmente de agora: lazer e anti-stress, com prática diária de Jiu-Jitsu. Sou muito grato ao esporte e, sem falsa modéstia, dele recebí muitas homenagens e prêmios:

Mérito Tamandaré - Marinha
Medalha Santos Dumont - Aeronáutica
Medalha Mascarenhas de Moraes - Exército
Medalha Pedro Ernesto - Assembléia Legislativa
Troféu Bola de Ouro (1980) - Melhor Dirigente do Desporto Amador
Benemérito Nacional do Judo
Benemérito da Liga Estadual de Jiu-Jitsu
Fundador da Luta Livre Olímpica Universitária e do Estado do Rio de Janeiro
Benemérito da Federação de Esportes Universitários do Rio de Janeiro
Conselheiro da Confederação Brasileira de Judo
Diretor da Agremiação Atlética Universidade Gama Filho - Deca Campeã Universitária

Agradecimentos ao restaurante Sushi Copa, local escolhido para a realização da entrevista.