Entrevistas
Evandro Lima

 
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Nosso entrevistado: Evandro Correia de Souza Lima. Aluno da academia há mais de dez anos. Advogado, atualmente é assessor de Órgão Julgador do Tribunal de Justiça - RJ, lotado na Presidência do TJ/RJ. Nasceu numa pequena cidade do interior do Estado do Paraná, Pato Branco. Em 1973, aos dez meses de idade, veio morar com a família no Rio de Janeiro porque seu pai veio para trabalhar como Juiz do antigo Estado da Guanabara. Seu sonho quando criança era ser piloto de avião, mas devido a um pequeno problema na vista, não passou no exame médico para instrução de vôo.
Optou em seguir a carreira jurídica, estagiou no escritório de advocacia de seu pai, e também mais tarde exerceu a profissão após formar-se pela PUC-RJ em 1998. Fez ainda Pós-Graduação e não parou mais. Encontra tempo para estudar para ser Juiz, seguindo assim os passos do pai. Socialmente não gosta de excessos, mesmo porque tem seus compromissos profissionais e acadêmicos, também não deixa de sair com os amigos, adora "junkie food", apesar de evitar. Não dispensa comida japonesa. Se o assunto é música, pode-se dizer que seu gosto é eclético, mas não suporta ouvir pagode, samba, música da Bahia ou sertanejo. Ultimamente, tem ouvido: Dispatch, Velvet Revolver, Ben Harper, Air, The Cult e Jorge Ben, principalmente da época antes dele ser Benjor. Sempre teve preocupação com a saúde. Quando criança praticou judô; não se adaptou à natação, porque era muito cedo e odiava o frio. Na adolescência fez ainda: caratê, vôlei e musculação. A entrevista foi realizada por meio de vários "e-mails" trocados.
FP: Como conheceu o Jiu-Jitsu ?

Evandro: Ouvi falar do jiu-jitsu há muito tempo, por volta de 1988. Um amigo do colégio que treinava, mas eu nunca tinha visto nada da luta, de modo que eu continuava sem saber no que ela consistia e como funcionava. Na realidade, naquele tempo não se ouvia coisas boas sobre esse esporte - coisa que continua até hoje, mas com menos intensidade, na minha opinião. É que, na época, as brigas de rua envolvendo praticantes de jiu-jitsu eram muito mais freqüentes, denegrindo a imagem desse esporte e, assim, contribuindo para o seu empobrecimento e desprestígio. Mais tarde, meu irmão, ainda muito novo, começou a treinar, lá na Barra. Mas, ainda assim, eu não conhecia o jiu-jitsu. Na verdade, eu só conheci o esporte, quando comecei a praticá-lo.
FP: Quando começou a treinar?

Evandro: Em dezembro 1994. Eu queria ter começado antes, mas como eu era cabeludo na época, fiquei esperando para conhecer uma academia que não tivesse rivalidades ou implicâncias com quem quer que fosse. Naquela época, o estereótipo de lutador estava muito mais forte. Careca ou cabelo "requinho", marombado, orelha estourada, etc. E os próprios adeptos tendiam a ser muito mais preconceituosos com quem não se encaixasse nesse perfil. Cansei de ouvir de conhecidos que lutavam, que "neguinho" iria raspar meu cabelo, caso eu entrasse para o jiu-jitsu. Uma vez, conversando com o então namorado da minha irmã -que já tinha treinado com o Pinduka- eu manifestei o meu inconformismo com o fato de eu querer treinar jiu-jitsu, mas não ter encontrado uma academia que tivesse a correta filosofia das artes marciais, em que se privilegiasse a consciência de valores fundamentais como: o respeito, a hierarquia, o companheirismo, a saúde física, intelectual e espiritual, utilizando o esporte como instrumento a serviço do conhecimento, crescimento e aperfeiçoamento individual. Foi então que ele disse que conhecia uma academia com esse perfil e que, se eu tivesse disposto, me apresentaria ao Prof. Fernando Pinduka. Claro, aceitei prontamente! Marcamos uma oportunidade e lá fui eu conhecer a academia e o professor, cujo respeito e educação se revelaram de imediato, de modo que, no mesmo dia, fiz uma aula experimental e, então, a matrícula. Lá estou, até hoje.

FP: Você acha o jiu-jitsu eficiente?

Evandro: Sem sombra de dúvidas! Acho que o jiu-jitsu é uma das mais, se não for a mais, eficientes artes marciais. A sua combinação de técnicas de golpes traumáticos, defesa pessoal, com a de projeção de quedas como no judô e "chão", imobilização e finalização, torna-a muito completa, preparando o praticante para as possíveis situações da realidade. Aliás, essa foi uma das razões pelas quais decidi praticar jiu-jitsu. Sem dúvida nenhuma, esse conhecimento nos confere uma segurança muito maior. Aliás, quanto mais conhecimento, mais tranqüilidade e equilíbrio você tem para enfrentar situações de adversidade.
FP: Já teve que usar a sua técnica para se defender?

Evandro: Sim, eu a uso a toda hora, mas não na forma que todo mundo imagina. Explico: é que, como já disse, o jiu-jitsu é, acima de tudo, uma filosofia de vida. É um caminho para o autoconhecimento e auto-aperfeiçoamento, possibilitando-nos alcançar uma vida equilibrada. Esse equilíbrio, como facilmente se percebe, deve abranger todos os aspectos de nossa existência: físico, emocional, intelectual e espiritual. Como sabemos, a vida é rica em experiências, tanto boas quanto ruins. Logo, é perfeitamente possível que as "agressões" não partam de pessoas, mas sejam elas as próprias situações de desvantagens em que nos encontramos. As agressões, nesse caso, são as adversidades com que nos deparamos a todo instante, em nossas vidas. O conhecimento da técnica nos permite estabelecer a melhor "estratégia" para esse "jogo", que é a vida. Aliás, quando analiso as situações da minha vida, costumo fazer uma analogia com o jiu-jitsu, o que me dá mais calma e clareza de percepção, para, assim, encontrar a solução adequada para os problemas surgidos. Quer um exemplo? Quando estamos numa situação de dificuldade, costumo dizer que isso se assemelha àquela situação em que o adversário está passando a nossa guarda, já nos imobilizando: quanto mais força fizermos, sem que o adversário permita, maior será o desgaste e, conseqüentemente, a probabilidade de sermos finalizados. Assim, o ideal é irmos movendo-nos de acordo com os movimentos do adversário, usando a força nos seus devidos limites, a fim de pouparmos energia e, dessa forma, sairmos da posição de desvantagem para, logo em seguida, ganharmos a posição vantajosa. Assim é na vida: quanto mais nos preocuparmos e nos debatermos cegamente, menores serão as respostas e possibilidades de solução. Devemos, então, resguardar-nos, para economizar energia e, com calma e clareza de visão, encontrarmos as saídas possíveis. Entretanto, se tiver que usar minha técnica para me defender numa situação concreta, de sofrer ataque de outrem, claro que a usarei. Mas o interessante é que, com o passar do tempo, você consegue antever as possíveis situações de risco, desvantagem e, com isso, evitá-las.
FP: Como você vê o jiu-jitsu em relação às outras artes marciais?

Evandro: Bem, nesse caso, a resposta varia de acordo com a perspectiva e objetivo do praticante. Inicialmente, vale salientar que todas as artes marciais, quando bem ensinadas, são válidas e dignas de elogios, principalmente por contribuírem para a melhoria da qualidade de vida do indivíduo. Como ressaltado, quando bem ensinadas, melhoram as aptidões físicas e emocionais do praticante. Embora todas as artes marciais mereçam nosso respeito e sejam válidas, na minha opinião, penso que o jiu-jitsu goza de uma certa proeminência em relação às demais, pelo menos, no tocante à sua eficácia prática. Explico: como já disse, escolhi o jiu-jitsu porque queria aprender uma luta que fosse completa e, por isso, me desse realmente segurança para uma eventual e excepcional situação concreta. Em outras palavras, queria aprender uma luta que fosse muito eficaz numa situação real. E, na minha opinião, o jiu-jitsu é essa arte marcial. Como já respondido, sua combinação de técnicas, golpes traumáticos, de projeção e de imobilização e finalização, tornam o jiu-jitsu uma arte marcial verdadeiramente completa.
FP: O jiu-jitsu tem muita influência em sua vida pessoal? Você faz proveito da arte para o seu condicionamento físico?

Evandro: Sem sombra de dúvida, para ambas as perguntas! Não consigo ver a minha vida pessoal dissociada do jiu-jitsu. E isso não quer dizer que eu não possa viver sem o jiu-jitsu nem que eu seja um fanático-alucinado por essa arte marcial. Digo, apenas, que essa arte marcial é para mim, antes de tudo, uma filosofia de vida, um caminho na busca do autoconhecimento pessoal. Por meio dele, consigo ser uma pessoa mais equilibrada e disciplinada, permitindo-me enfrentar melhor as situações adversas. Mesmo sem sentir, é evidente que a "arte suave" traz benefícios para o meu condicionamento físico, melhorando minha condição cárdiorespiratória e tonificação muscular. Quando treino regularmente, percebo que a melhoria nesses aspectos é fortíssima, o que me estimula a intensificá-la, mediante, por exemplo, controle sobre o consumo de álcool, gorduras, doces. Enfim, quando treino, me sinto estimulado a altera minha rotina alimentar, a fim de torná-la mais saudável e, conseqüentemente, aumentar meu rendimento físico e melhorar minha auto-estima.

FP: Qual a sua opinião em relação à mídia classificando o jiu-jitsu como uma arte de baderneiros?

Evandro: Trata-se de um assunto que nem sempre foi bem enfrentado e ou discutido. Inicialmente, até acho a posição da mídia compreensível, mas não justificável. O jiu-jitsu é praticado no Brasil desde o início do século passado, quando o mestre Carlos Gracie recebeu seus primeiros ensinamentos. Todavia, penso que no final da década de 80 e início da década de 90 ele sofreu um "boom", sendo milhares os adeptos dessa arte marcial, com incontáveis academias clandestinas. Aí, na minha opinião, surgiu o problema. Como já falei, o jiu-jitsu é uma arte marcial muito eficiente. Desperta, nos iniciantes, uma certa sensação de autosuficiência, que, em personalidades fracas e/ou em adolescentes inseguros, que buscam a auto-afirmação, pode descambar para o desrespeito para com o próximo. Justamente por isso, precisa ser muito bem orientado e limitado por um professor/mestre, realmente habilitado para essa função. Entretanto, por ser uma arte marcial ainda relativamente nova, que não conta com a tradição de outras que são lutas olímpicas - por exemplo: o caratê, o judô e o tae-kwon-do - não havia e talvez ainda não existam, professores suficientemente treinados e aptos para o ensino do jiu-jitsu, contribuindo para a profusão de uma mentalidade que nada tem a ver com a real filosofia do jiu-jitsu. Essa arte marcial passou a ser ministrada em todos os cantos. Qualquer "fundo de quintal", com um pretenso professor, que muitas vezes sequer era graduado - faixa roxa em diante-, "ensinava" Jiu-Jitsu. O que se viu, então, foi um "show" de ignorância e brutalidade: uma infinidade de brigas em ruas, boates, de academias rivais ou não; confusões com leigos, por pura "brincadeira"; hostilidades sem qualquer justificativa, senão para mero e bizarro prazer do próprio agressor, etc. Nesse sentido, é óbvio que a "arte suave" mostrou para a sociedade exatamente aquilo que não é ou que não se propôs a ser: arte brutal. Claro, então, que as críticas foram contundentes e muito corretas, pois é inadmissível esse tipo de comportamento, principalmente por seu alto grau de covardia, pecha inaceitável em um verdadeiro praticante de jiu-jitsu. Contudo, acho que, com a profissionalização de atletas e com o advento dos eventos de "vale-tudo", surgiu a consciência no praticante da importância de se coibir esse tipo de comportamento. Acho que aumentou o número de professores habilitados, registrados na Federação, e também a consciência de suas responsabilidades. Penso que muito ainda tem que ser feito, principalmente quanto a uma maior e melhor organização interna das federações e ou confederações. Seja como for, é inegável que houve uma grande melhoria no tocante aos baderneiros. Nesse particular, vale notar que, infelizmente, o espírito emulativo faz parte da condição humana e, justamente por isso, está presente também em outros esportes.
FP: Você acha que o JJ pode ser classificado como uma atividade Biopsicosocial?

Evandro: Entendendo atividade biopsicosocial como aquela que envolve aspectos físico, emocional e social do indivíduo, sem dúvida o jiu-jitsu pode ser incluído nesse conceito. Nas respostas anteriores, ressaltei os benefícios físicos e psicológicos emocionais, mas os benefícios também se estendem para o campo social. O bom e verdadeiro professor/mestre, além de cuidar especificamente da qualidade dos treinos, procura e se preocupa com a harmonia do ambiente de ensino. A academia passa a ser uma extensão de nossa casa e, também, de nossa família. A relação de convívio saudável e harmonioso entre os alunos permite a formação de vínculos de amizade e inúmeras situações de congraçamento social. Sinto-me, realmente, um felizardo, pois encontrei uma academia que se encaixa perfeitamente nesse perfil.