Data:jornal O GLOBO, domingo, 3 de janeiro de 2010. Por Antônio Marinho.
Atletismo sem idade
Atletas com mais de 60 anos redefinem
o conceito do que é um corpo natural
Em seu apartamento na Filadélfia, Frank Levine pega uma lista com medicamentos de sua geladeira, com as mãos levemente tremendo. No papel, metformina HC1 e glipizida para tratar o diabetes; lisinopril contra hipertensão; e Viagra: "Eu preciso delas", diz sobre suas pílulas. Levine, de 95 anos, já operou os dois joelhos, e em junho marcou o recorde americano nos 400 metros rasos para homens na faixa de 95 anos a 99 anos, apenas para vê-lo batido no Campeonato Americano Masters de Atletismo algumas semanas mais tarde. "Nada conta, a não ser que você seja o primeiro", afirma.
Ele faz parte de uma geração de atletas que está quebrando recordes de velocidade, distância e resistência em idades antes consideradas idosas demais para competições, mostra reportagem do jornal "The New York Times". Num esporte manchado por escândalos de doping, os masters levantam novamente a questão do que constitui um corpo natural para as pessoas que estão numa fase em que as drogas são parte de suas vidas.
- Quem aos 75 anos não toma medicamentos? - diz Gary Snyder, presidente nacional do comitê master do atletismo americano, que organiza mais de cem competições este ano para os atletas acima de 30 anos.
A maioria das drogas, como as que Levine usa, não são proibidas para competidores. Mas alguns tratamentos para asma, menopausa e inflamação contêm esteróides que podem desclassificá-los se não tiverem uma receita médica.
O atletismo tem política de tolerância zero com doping, mas não testa atletas em eventos para masters, porque isso é muito caro: cerca de US$ 500 por participante e adicional de US$ 10 mil para organizador. Mas há testes no Campeonato Mundial de Masters, que este ano ocorreu na Finlândia, no final de julho. Em 1999, a velocista americana Kathy Jager, de 56 anos, perdeu suas medalhas e foi suspensa do esporte por dois anos depois que seu exame deu positivo para esteroides anabolizantes. Ela alegou que usava remédios para alívio da menopausa.
Rosalyn Katz, 67 anos, diz não usar medicamentos. Administradora escolar aposentada, ela treina com sua personal trainer, Neni Lewis, num parque da cidade. As duas praticam a modalidade antes das 7h, duas vezes por semana.
- Não creio que alguém que está tomando, remédio contra asma vai treinar melhor. Acho que eles usam o medicamento porque tem dificuldade para respirar.
Como muitas outras mulheres que competem acima de 60 anos. Rosalyn diz que ela não tinha pista disponível quando estava na escola e nunca praticou esportes até que estava perto de completar 50 anos. Da mesma forma, Levine não começou a correr antes de chegar aos 65 anos. Quando sua esposa foi internada, um amigo sugeriu que ele deveria correr e que poderiam treinar juntos para uma maratona. Ele correu 18 maratonas antres de optar por provas de curta distância. e também acha que seus adversários não usam drogas, a não ser de forma medicional.
- Em 1950 você era velho ao completar 50 anos. eu nçao me sinto velhor agora - reclama Levine, do alto de seus 95 anos, que na juventude foi campeão do boxe.
Em competições de masters, os atletas são agrupados em faixas de cinco anos de diferença. Levine está na categoria de 95 a 99 anos, e vê isso como uma vantagem. Já que é o mais novo nessa faixa.
Champion Goldy, de 92 anos, corredor e arremessador, conta que a sua meta era correr os 100 metros rasos quando ele tivesse 100 anos. Eles se diverte nos circuitos mas teme as inevitáveis ausências nas disputas:
- Você pergunta onde está fulano, e dizem. Ah, ele teve um ataque cardíaco.
Mesmo com a convivência agradável há eventual desconfiança. Tom Rice, 81 anos, se afastou ao suspeitar de que colegas estavam superestimulando músculos.
- Isso é ridículo. Eles tomam algo - afirma Rice, que usa um remédio para controlar o colesterol e um anti-hipertensivo, nenhum dos dois proibídos. - Não posso sequer imaginar isso nesta idade. Não são as Olimpíadas. Muitos atletas jovens ficam tão enlouquecidos que tomam pílulas, destruindo suas saúde apenas por uma medalha.
Angela Jimenez / The New York Times