Ana Lucia Azevedo escreve para “O Globo - Domingo 5 de abril de 2009”:
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Falta de atividade física regular se torna um dos grandes desafios à saúde pública mundial no século XXI
Todo mundo sabe que o Brasil e boa parte do planeta sofrem uma epidemia de obesidade. Mas, literalmente, pouca gente se mexe para fazer alguma coisa a respeito. E, por isso, temos também numa epidemia global de sedentarismo.
Num estudo recente, a falta de atividade física é classificada como um dos maiores problemas de saúde pública deste século. Prima-irmã da obesidade, a inatividade é fator de risco para doenças cardíacas e metabólicas. A atividade física ajuda a emagrecer (embora dieta seja o mais importante para perder peso) e é fundamental para o bom funcionamento de todo o corpo.
O pesquisador americano Steven Blair, do Departamento de Ciência do Exercício e Bioestatística da Universidade da Carolina do Sul (EUA), publicou recentemente um artigo em que alerta que a inatividade encabeça a lista dos inimigos da saúde.
Na revista “British Journal of Spor ts Medicine”, ele lamenta que pouca atenção seja dada ao assunto. Um outro estudo na mesma revista científica coloca, pela primeira vez, o tempo que passamos sentados como fator de risco para doenças crônicas, como diabete do tipo 2. Estima-se que as pessoas urbanas passam, em média, nove horas do dia em atividades sedentárias — isso sem levar em conta o tempo de sono.
— As pessoas devem encarar a atividade física como algo indispensável, como um hábito de higiene. Uma aliada, e não algo impossível — diz o professor de educação física Marcelo Cabral, da academia Proforma.
Mas para fazer face a um mundo em parte considerável da população que come demais e se mexe de menos, o Colégio Americano de Medicina do Esporte apresentou em 2009 uma nova recomendação de prática de exercícios para controle do peso. Nada menos que uma hora de atividade aeróbia moderada, cinco vezes por semana, só para não engordar.
— Os estudos mais recentes demonstram que a quantidade de exercício necessária aumentou não só porque as pessoas ingerem mais calorias, mas porque o nível de atividade física diminuiu consideravelmente.
Em função do avanço tecnológico, da melhoria nos transportes e do aumento do conforto, baixou o que chamamos de atividade física espontânea (deslocamento, trabalho, tarefas domésticas etc.) e aumentou o tempo de atividades sedentárias como ver TV ou usar o computador — observa Cabral.
A professora Mara Patrícia Chacon Mikahil, do Laboratório de Fisiologia do Exercício da Faculdade de Educação Física da Unicamp, concorda:
— Os hábitos modernos reduzem a demanda por atividade. A primeira coisa a fazer é se convencer que o movimento faz parte da nossa natureza. Tratar isso como hábito essencial. Encarar como comer, dormir e escovar os dentes. Passar a andar menos de carro e de elevador já ajuda. Mas o ideal é dedicar, pelo menos, cerca de 50 minutos duas vezes por semana para uma atividade física moderada, como caminhar depressa ou andar de bicicleta. Isso é o mínimo para não ser considerado uma pessoa não ativa.
As recomendações dos especialistas americanos podem soar impossíveis e draconianas para muita gente, mas Cabral destaca que o mais importante é adotar um estilo de vida ativo:
— Para emagrecimento, tanto faz se você se exercita uma hora direto ou parcela em seis vezes de dez minutos.
A professora Vera Aparecida Madruga, do Laboratório de Fisiologia do Exercício da Faculdade de Educação Física da Unicamp e assessora da Pró-Reitoria de Graduação da universidade, frisa que se exercitar é importante não apenas para emagrecer:
— Os benefícios da prática de atividade física regular influenciarão positivamente o organismo no que se refere à disposição, à melhora do sono e ao alívio do estresse.
Tony Meireles dos Santos, professor dos cursos de mestrado e doutorado em educação física da Universidade Gama Filho e consultor do Conselho Regional de Educação Física (CREF1/RJ), diz que, literalmente, o primeiro passo é encontrar uma atividade física prazeirosa:
— Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos sedentários para adoção de atividades físicas é a drástica mudança de estilo de vida. Se a pessoa quer modificar seus hábitos de forma duradoura, para que tenha benefícios, precisa escolher uma atividade que se adapte aos seus interesses e disponibilidade.
Alguns especialistas dizem que no fundo tudo é uma questão de adequação ao projeto. No caso, o do nosso corpo. O ser humano evoluiu nas savanas africanas. Surgida há cerca de 150 mil anos, nossa espécie passou a maioria deles numa longa e interminável corrida diária atrás da comida. Havia fast food. Mas esta era mesmo rápida, tinha patas, asas e fugia dos caçadores sempre que possível. Era preciso perseguir a comida.
A opção vegetariana também não envolvia preguiça. Como os povos caçadores-coletores de hoje ainda fazem, os antigos humanos andavam, andavam e andavam atrás de frutos, raízes e o que mais fosse possível comer. Os últimos séculos testemunharam mudanças profundas do modo de vida. E o século XX marcou transformações radicais. Só que o corpinho da Idade da Pedra continua o mesmo no século XXI.
— Definitivamente, nosso corpo não foi projetado para o sedentarismo. A facilidade de acúmulo de gordura, que já foi útil um dia para armazenar energia e proteger do frio, e a dificuldade orgânica que temos em adaptar a fome e a saciedade às necessidade atuais de ingestão de comida sugerem isso — diz Marcelo Cabral.
Opinião semelhante tem Vera Aparecida Madruga. Ela destaca que exercícios ajudam a emagrecer, mas é fundamental comer menos e melhor. Segundo Vera, comemos muitos alimentos não apropriados:
— A quantidade de alimentos diversificados e sem qualidade aumentou.
Num mundo ideal, as pessoas deveriam combinar atividades aeróbicas, como corrida e ciclismo, com musculação, que dá maior massa muscular e ajuda o corpo a executar as tarefas cotidianas.
— Claro, sabemos que isso não é possível para todo mundo, mas o importante é ter em mente que você só lucra quando exercita o corpo — diz Mara Patrícia.
(O Globo, 5/4)