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14. O TATAME - Ano 1 #4 Julho 95.
 
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Juízo é uma coisa que todo mundo recomenda mas pouca gente tem. Alguns adquirem com o tempo, outros preferem dar soco em ponta de faca.
O caso de Fernando Guimarães, o Mestre Pinduka, parece ser o mais aconselhável. Quarenta e dois anos de vida e trinta de Jiu-Jitsu deram a Pinduka, o antigo arruaceiro da praia de Copa, a posição do árbitro mais requisitado para grandes lutas. A vida também lhe ensinou como educar seus alunos, detentores de uma prática que pode ser mortal -  o Jiu-Jitsu. É sobre o Jiu-Jitsu, juízo e arbitragem que Pinduka, nessa entrevista, expõe suas idéias. Idéias que alertam para a falta de uma força fundamental na Arte Suave: a integração.
T- A que você atribui o problema da arbitragem no Jiu-Jitsu?
Eu acho que a arbitragem tem que ser reformulada para que possamos diminuir o número de jurados para cada luta. Diminuindo a quantidade de árbitros, colocando um árbitro central somente como apontador, eu acho que poderíamos fazer cursos e seminários para a especializar esses árbitros para que possamos fazer um quadro nacional, um quadro fixo, para que a Confederação possa ter um departamento exclusivo de arbitragem. Acho que a saída é essa.

T- Durante competições, com freqüência, os árbitros também assumem os papéis de técnico, professor e competidor. Você acha que isso atrapalha o desenvolvimento de arbitragem?
Eu acho que quando ele for competir, ele não deve integrar o quadro de árbitros, e quando ele for professor e tiver treinando, dando instruções para algum atleta seu, no momento ele deve estar afastado também. Eu acho que o árbitro tem que ser neutro, né? Se o indivíduo é treinador da equipe "A" e tem um lutador das equipes "B" e "C", lutando ele pode ser o árbitro desse confronto. Mas se tiver um atleta da equipe "A" contra a equipe "C", aí ele já não pode participar. O que acontece é isso. No sistema de três jurados, a gente via muitos jurados que pertenciam à mesma academia de um dos competidores. Então isso levava a um resultado às vezes duvidoso, as pessoas trabalhavam com má-fé para ajudar, e outros, até por incompetência.

T - Como poderia ser formação oficial dos árbitros?
Eu acho necessário que a Confederação e a Federação criem um departamento de árbitros e ponha alguém responsável por ele, ou uma comissão de arbitragem responsável, justamente para dar curso para esses árbitros e professores que têm por intenção trabalhar no evento. Seria importante que tivesse um número de professores, ou de atletas, ou de competidores, com esse curso de arbitragem justamente para dar credibilidade ao evento. Então ele seria um membro do departamento de arbitragem. Ele já teria credibilidade por ter feito cursos, vários seminários, entendeu? Isso daria consistência ao conhecimento dele e daria credibilidade porque ele estaria vinculado a um departamento de arbitragem. Seria de suma importância para terminar com essa polêmica de "roubou, não roubou". Fazendo o curso, qualquer pessoa teria o conhecimento maior.

T - Até que ponto a má arbitragem pode comprometer a integridade física dos atletas?
A má arbitragem acarreta em vários fatores. Eu, que já fui atleta, já competi, eu sei com é árduo se preparar para uma competição. Você se prepara dois, três, quatro meses para uma competição, aí chega, perde uma luta por um erro da arbitragem. Então a arbitragem tem que ser responsável pela integridade do atleta. O árbitro tem que ter conhecimento de primeiros socorros, saber socorrer um atleta no local da competição. Toda competição tem que ter um corpo médico. Dentro desse curso de arbitragem, seria importante também o árbitro ter conhecimento de socorros urgentes, reanimação do atleta. Caso ele apague, seria de suma importância. A integridade física do atleta é de responsabilidade do evento, da Federação. Acho que tem que ter um corpo médico e o árbitro tem que estar ali pronto para colaborar e também atento para se o atleta tiver o braço no pau, já para quebrar, ele parar a luta antes de acontecer uma contusão. Isso é muito importante, inclusive em competições infantis, onde o garoto que está pegando o golpe, às vezes é maudoso, às vezes não sabe até que ponto pode apertar ou não. Então um árbitro experiente neutraliza a possível contusão antes que ela aconteça. Tudo isso seria enfocado no curso. Teriam médicos, fisiologistas, uma séria de pessoas que podem contribuir na formação de um bom árbitro.

T - Qual o seu projeto de reformulação?
O projeto que tenho é você hierarquizar as posições. Colocar o valor de cada fundamento que vale ponto dentro de uma hierarquia básica. Então nós temos seis fundamentos que valem pontos: montada pela frente, pegada pelas costas, passagem de guarda, joelho na barriga, raspagens e queda. Então você colocaria um valendo mais do que o outro para que possa ser criado no futuro um placar para o público acompanhar, para que os técnicos e os atletas sabiam quem esteja ganhando, que esteja perdendo, e evitar a polêmica de ganhar no grito, "ganhou não ganhou", do árbitro ser pressionado, e evitar o desempate. Porque o desempate é que causa polêmica. Quando você chega no zero a zero, no dois a dois, então com um árbitro capaz, com conhecimento técnico, fatalmente ele vai saber quem venceu e quem perdeu. Isso é importante. Ainda mais agora que nós estamos entrando numa era internacional, então o americano, o europeu, o gringo, ele é muito sério. Ele vai querer um estatuto, se ele vai fazer um campeonato panamericano ou um campeonato mundial. Acho que as regras têm que ser bem claras e bem concisas para que não deixem marca de dúvidas, o que vale o que não vale. Se ficar neste esquema atual, você passa a guarda e o outro defende o tempo todo, aí o de baixo ganha, na luta acontece a mesma coisa e o de cima ganha, a gente vê muito isso. As lutas terminam empatadas e um resultado é diferente do outro. Por quê? Tudo isso tem um porquê que não é explicado e as pessoas não entendem. Nem atleta entende, nem público entende, nem treinador entende. Então fica aquela coisa no ar. Com essa proposta, ficaria uma coisa mais exata, uma definição mais exata do que vale e o que não vale.

T - O que a Confederação Brasileira e a Federação Carioca vêm fazendo para solucionar os problemas de arbitragem?
Eu acho que melhorou. Melhorou porque eles estão desenvolvendo um trabalho de mais integração. Houve esse seminário na Gama Filho, que foi feito antes do Estadual de 94. Foram debatidas as regras, aquele estatuto entregue na Confederação. Isso foi um grande passo, a Confederação ter elaborado aquele estatuto de regras e normas de arbitragem de pontuação. A Federação procurou graduar os professores que realmente são professores.

T - Qual o Trabalho que você desenvolve na Universidade Gama Filho?
É um trabalho de longo prazo que você busca um caminho que o Jiu-Jitsu atual não tem. O que é? É a credibilidade que você leva para a universidade para que o aluno de Educação Física tenha o conhecimento do que é o Jiu-Jitsu na sua íntegra: na sua história, na sua filosofia, os fundamentos técnicos específicos, as bases de qualidades físicas - força, velocidade, resistência. É um estudo mais de pesquisa. Os professores de educação física ajudam a pesquisar os benefícios que o Jiu-Jitsu tem, o que ele pode acarretar num praticante e também na colocação em função do comportamento que um atleta deve ter. A proposta do professor Pedro é colocar o Jiu-Jitsu ao nível olímpico. Então até chegar lá, é um caminho muito longo. O Jiu-Jitsu estava desacreditado em função de violência, de baderna. Almejando o Jiu-Jitsu alcançar um lugar dentro do esporte olímpico, eu acho que a conjuntura total, todo mundo vai procurar seguir o mesmo caminho. Todo mundo procurando colocar o Jiu-Jitsu num patamar acima, melhorando o nível das competições, o comportamento dos atletas, a valorização do perdedor, sem confusão e procurar melhorar o nível intelectual dos lutadores, do público em geral que acompanha o Jiu-Jitsu. O Jiu-Jitsu deu um passo fantástico entrando como matéria na universidade. Então isso acarreta um determinado status e as pessoas que praticam vão procurar ter um nível melhor, tanto intelectual como comportamental.

T - Então é um passo importante para se transformar em esporte olímpico?
Sem dúvida. O professor Pedro é uma pessoa que sempre incentivou as artes marciais. E o objetivo em colocar o esporte na Olimpíada é em função dele ser uma pessoa muito carismática, com ótimos relacionamentos. Ele é uma pessoa que só vai somar. Só em ter aberto as postas da universidade para o Jiu-Jitsu já houve evolução em vários sentidos. Tanto o seminário de arbitragem como os campeonatos que são feitos na Gama Filho sempre transcorrem da melhor maneira possível, porque sendo um estabelecimento educacional, as pessoas se sentem mal em determinada colocação de falta de comportamento. Eu acho que de um ano e meio para cá, desde que o Jiu-Jitsu entrou na universidade, já houve uma certa evolução.
T - Até que ponto a bagunça afasta o respeito pelo Jiu-Jitsu?
O Jiu-Jitsu é um desporto respeitado. E você vê que ele é o esporte que mais cresce no país atualmente. Jiu-Jitsu é maravilhoso, eu amo o Jiu-Jitsu, eu adoro, eu não sei viver sem o Jiu-Jitsu, mas o que falta é justamente essa integração de valores. As pessoas se integrarem num consenso para o bem comum ao esporte. Isso é que é importante. Você levar em consideração todos esses fatores unificar regras, formar um departamento de arbitragem para todas as pessoas que façam o curso e saiam árbitros tenham a mesma visão, a mesma interpretação. Muita gente difere a arbitragem por pura interpretação. O que vale para um árbitro não vale para o outro. Um árbitro demora a dar o ponto, o outro dá rápido demais. Isso tudo difere na arbitragem. Você chegar e ter um feeling para ter o tempo certo para pontuar isso tudo é uma questão de experiência, você saber que o adversário vai consolidar aquela posição. O Jiu-Jitsu vai melhorar quando houver conscientização de integração de cabeças; todo mundo pensar uniformemente, seja no Rio em São Paulo, em Minas, no Sul no Nordeste, nos Estados Unidos, na Austrália, em qualquer lugar desse, todo mundo dentro do mesmo consenso da mesma interpretação. Aí o esporte vai evoluir muito.

T -  Como que idade começou a treinar?
Com 12 anos.

T - Você tem fama de ter sido porradeiro...
Isso aí é uma fase que todo garotão passa.  O sujeito passa por uma fase de autovalorização, auto-afirmação e quer testar na rua os conhecimentos aprendidos na academia. Isso é uma faca de dois gumes: às vezes pe benéfico de um lado que te da autoconfiança e prova a consistência técnica que o Jiu-Jitsu tem. E por outro lado, tá arriscado tu levar um tiro na cara (risos). Porque naquele tempo não tinha negócio de revólver, não tinha essa violência que tem hoje. Era turma de rua, de bairro. Mas a classe social permitia que você brigasse hoje com determinada pessoa a amanhã ficasse amigo dela. Era briga mais de uma faixa etária de pessoas que estavam na adolescência e se respeitavam.

T - Você foi criado em Copacabana?
Criado em Copacabana.

T - Você foi criado em Copacabana?
Criado em Copacabana.

T- Já deu porrada em muita gente aqui?
Isso aí já, mas é melhor esquecer. (risos)

T - O que você tirou disso?
Eu aprendi bastante ao ponto de chagar hoje e saber diferenciar determinadas fases de comportamento. Hoje, através dessa experiência que eu tive, eu tenho conhecimento de cadeira para educar meus alunos de forma contrária. Chegar e conhecer quando um aluno é agressivo, quando o aluno é tímido, quando tem aptidão para o Jiu-Jitsu, quando não tem. Então essa visão de rua me deu consistência bastante para fazer uma análise psicológica dos alunos e poder passar para eles que isso é uma coisa bastante negativa... minha experiência própria... inclusive a época é outra e coisas que se faziam antigamente são quase impossíveis de se fazer hoje em dia.

T - E o vale-tudo como o Marcos Ruas em 1984. Qual a recordação que você tem dele?
Aquilo foi uma coisa emergencial, porque na época eu estava com 32 anos e tava treinando por treinar, tava parando de competir. Já era formado em educação física, tinha uma academia de ginástica, dava mais aula de ginástica e treinava pouco. Houve o desafio por parte do pessoal do Molina, que era o cabeça da equipe deles, e havia dez, quinze dias para aceitar o desafio. O Jiu-Jitsu foi pego de surpresa e na época, por ser fim de ano, era final de novembro, pessoal já meio relaxado e tal, e ninguém tava em forma para topar esse desafio. Em função do meu amor pelo Jiu-Jitsu e meu respeito pelo Carlson, e na época o Carlson não tinha ninguém preparado para colocar e eu me ofereci para disputar. Eu fui de corpo e alma para defender o Jiu-Jitsu. Eu tava com trinta e dois lutando com um adversário de vinte e três e num sistema de luta totalmente desfavorável para mim, porque era round de cinco minutos, muito pouco né?

T - Você tem orgulho de ter defendido o Jiu-Jitsu como atleta?
Isso é bom. Isso é bom porque tudo que a gente faz por amor, a gente tem uma recompensa mais adiante. Eu amo o Jiu-Jitsu e não me arrependo não. É isso aí.